• INSTITUTO FLÁVIO LUCE

À OPORTUNIDADE DAS FESTAS MAIS UM CONVITE À REFLEXÃO

POR Fernando Molinos Pires Filho



Sem qualquer dúvida tratar das doenças é função de todos os profissionais que atuam na área da saúde, portanto, sem exceção, se tornam merecedores de nossas homenagens e admiração pelo trabalho que desenvolvem. Com raríssimas exceções a sociedade neste momento de pandemia, que ainda enfrentamos, testemunhou tal reconhecimento.Além disso, nos mesmos como usuários, que também, em dados momentos todos somos, recorremos a eles em busca de tratamento, de cura e da restauração daquilo que perdemos – a saúde.

Dito assim tudo parece natural e tranquilo. Mas, como sabemos isso não se constitui em uma verdade absoluta, sobretudo em sociedades como a nossa onde essa necessidade torna-se um produto, mais do que isso, um bem econômico, sujeito às leis do mercado.

Nessa condição, bem sabemos, só conseguem acesso a ela os que podem comprá-la nesse seletivo e competitivo mundo dos negócios. Os que não podem dele participar, marginais se tornam e, fora da benemerência e da ainda frágil assistência oferecida pela rede pública estruturada na concepção e prática como direito e dever do Estado, esses doentes ficam excluídos e a deriva na busca de tratamento, adoecendo, dia a dia, cada vez mais .

A estes, o que resta é o emprego de procedimentos caseiros, consumo de falsos e inócuos remédios (livremente propagandeados por estabelecimentos comerciais de diferentes naturezas)-e pela visita/ busca de procedimentos oferecidos por curandeiros e charlatões, quando não, com mais frequência, por religiosos inescrupulosos que se especializam na venda de milagres e na mediação desses pacientes com entidades divinas, dotadas de poderes de curas para qualquer tipo de doenças ou alivio do sintomas delas decorrentes.

Desta forma, enquanto a assistência for estruturada sob essa concepção mercadológica ou divina, a interrupção dessa situação - que já vem sendo assumida como uma verdadeira sina - não se vislumbra qualquer possibilidade de solução. Continuaremos a adoecer e sofrer de velhas e novas doenças.

Como ilustração do que aqui digo cabe referir a imagem de alguém que tenta secar o assoalho com a torneira aberta. Ou seja, nossa sociedade, como está estruturada, é adoecedora.

Neste sentido, também aqui, a pandemia nos serve de exemplo, o que significa dizer que nem a sombra da morte, que paira sob o mundo, é suficiente para a criação de mecanismos, mesmos baseados na solidariedade, capazes de proporcionar melhores condições de sanidade ou prevenção das doenças, que fragilizam a condições de vida de todos, nesta circunstâncias, sobretudo dos segmentos mais pobres da população. Para fugir da retórica narrativa basta recorremos, de novo, ao exemplo do que vem acontecendo com a produção e distribuição de vacinas para o combate a Covid, que bem retrata esse descompromisso humanitário, sobretudo de parte dos grandes laboratórios e firmas de medicamentos e de governante insensíveis até mesmo à preservação da vida, em um planeta já ameaçado em sua própria existência como habitat de todas as espécies, em especial a humana.

Esquecem que somos todos responsáveis pelo lugar em que vivemos.

Já aos profissionais que se sentem tocados por tão grave realidade, só resta conviver, de uma parte, com o conflito de ver seu saber ( constituído para servir a humanidade,como rege o juramento de Hipócrates que fizeram), ser ofertado sob a forma de serviços como se fossem mercadoria, e de outra, o que é mais grave, de vê-los oferecido seletivamente somente aqueles que podem comprá-los em estabelecimentos do mercado do qual, involuntariamente, acabam fazendo parte.

Desta forma, querendo nós, ou não, tornam-se as pessoas adoecidas e, também os profissionais, aptos a combater as doenças, nada mais que elos de mais uma engrenagem no mundo dos negócios de sociedades organizadas sobre a lógica exclusiva da economia.

Assim, tal estrutura societária gera, também, um contingente de profissionais que mesmo cientes desse cruel contexto, a ele se rendem, fecham os olhos e dele usufruem sem necessidade de qualquer justificativa, a não ser a de dizer de que o mundo é assim, sempre foi assim e, dessa forma continuará sendo.

Tal tipo de atitude e comportamento nega a realidade como construção histórica humana que chama a todos, sem distinção, a assumir e responder a seus atos de intervenção ou omissão frente a ela.

Em tais circunstâncias, mesmos os profissionais de saúde que a essa realidade não se rendem, na busca de atualização e aperfeiçoamento de suas práticas, condição sempre perseguida, precisam buscá-las não somente em relação aos saberes e as técnicas médicas, mas em matérias e estratégias próprias à gerência e à administração de empreendimentos de negócios, na medida em que suas práticas profissionais se tornam espaço de disputa por consumidores.

Daí as fortes resistência das corporações profissionais à abertura de novas faculdades, a denuncia do número das já existentes e as restrições e adoção de medidas retardatárias para licenciamento do exercício profissional dos que nelas se formam, quadro existente em algumas categorias, onde a pletora profissional se verifica. Constitui-se essa situação em um aspecto lei da Oferta e da Procura que se aplica na regulação dos mercados e em suas conhecidas consequência nos preços cobrados dos clientes compradores.

Mas ainda em relação a questão da oferta de “qualificação/aperfeiçoamento”, tratada como “investimentos” de parte de quem as oferta, o que nos parece mais preocupante é que tais tipos e oportunidades de “aperfeiçoamento e atualização” são patrocinadas por entidades de representação desses profissionais a quem caberia, na verdade, oportunizar aos membros de suas categorias outro tipo de zelo pelo exercício profissional baseados nos princípios de uma bioética de responsabilidade em relação à sociedade e não da lógica mercadológica que se volta para a “qualificação” para a disputa e lucratividade em seus negócios profissionais.

Além disso, cabe alertar ainda para os problemas que a desordenada, por vezes mal justificada criação de especialidades, nem sempre correspondentes as reais necessidades e prioridades de uma população adoecida, pode provocar.

A primeira, a crescente submissão dos profissionais as ofertas comerciais de qualificação, nem sempre regulares, o que potencializa a segunda, evidentemente, relacionada aos perigos de desenvolvimento de práticas iatrogênicas em relação aos pacientes. A terceira, não menos significativa, as anteriores, refere-se a pressão que tal demanda pode, eventualmente, se fazer sentir sobre as instituições formadoras de profissionais, desviando seus projetos curriculares pela demanda a incorporação de novos conteúdos e práticas coerentes a essas especialidades em detrimento de outros mais consequentes e articuladas a paradigmas pedagógicos que tomam a saúde e não as doenças como referência para a formação de profissionais, ideologicamente comprometidos em seus exercícios profissionais com a promoção de sociedades mais saudáveis.

Finalmente, caros Colegas e amigos, neste momento, por um lado de festas e de outro de enormes dificuldades para a vida, ocasião em que somos pródigos em nos dedicarmos a votos de felicidades e augúrios de um próximo ano de transformação e recuperação de nossa sociedade que, entendo oportuna esta reflexão que, aqui, lhes proponho.

Nesse sentido considero, também, oportunidade para cada um de nós nos posicionarmos frente a duas condições ou dilema que essa realidade nos impõe: a de nos comportarmos como simples e pacatos observadores ou a de nos assumirmos como sujeitos protagonistas das transformações que tal situação nos impõe.

Penso que se assim continuar caminhando a humanidade, se não aprendermos e nos capacitarmos para o exercício da política que, como instrumento de intervenção na realidade é, por excelência, o meio de combater a cegueira dos que se negam a ver, compreender e participar dos processos de transformação dessa sociedade de injustiças, desigualdades e discriminação de todas ordens que inviabilizam o acesso livre e universal à saúde, como direito de todos e responsabilidade do Estado, único caminho a se contrapor ao deletério mercado de enfrentamento a doença, hoje existente.

Penso, também, que se impõe a nós a construção de espaços reais e democráticos de discussão que tomem como objeto, de uma parte a nós mesmos como cidadãos profissionais, com nossas responsabilidades e dilemas e, de outra a reversão da assistência a doença pela prática da promoção de saúde tomada em seu significado de vida, qualidade de vida, expressão das contradições que as mulheres e os homens vivenciam no experiencial de seu próprio viver em sociedade, ou seja, uma condição que sempre, mas de forma quanti e qualitativamente diferenciada, estará presente, em função do grau de justiça e equidade alcançado pela sociedade.

Mas, para não cansa-los ainda mais dessa verdadeira utopia falaremos disso em outra nova postagem ( fiquem tranquilos) somente em 2022.

Por enquanto tentem ser felizes, mas não esqueçam que, mantida as condições de vida do momento histórico em que vivemos a grande maioria de nosso povo não tem condição de sê-lo.

Mais uma vez desculpem por importuna-los mas:


A LUTA PRECISA CONTINUAR!


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