• INSTITUTO FLÁVIO LUCE

A EPIDEMIA DE CORONAVIRUS E A CATEGORIA ODONTOLÓGICA- UM TEMA PARA REFLEXÃO

Atualizado: Jun 5

POR FERNANDO MOLINOS PIRES FILHO - DOUTOR EM ODONTOLOGIA SOCIAL- MEMBRO DA COORDENAÇÃO DO INSTITUTO FLÁVIO LUCE


Caros colegas:

Instado por vocês, que se organizam no espaço do Instituto Flávio Luce, estamos, com esse texto, atendendo sugestões para que considerássemos a conveniência de uma manifestação pública, sobre essa questão, hoje mundializada, sob a forma de uma pandemia do coronavirus.

Confesso que essa demanda coincidiu com a necessidade que vínhamos tendo, no sentido de levar a frente, alguma ação que atendesse o propósito de compartilhar com colegas compreensões sobre a questão, o que se acentuava à medida que o assunto ganhava a dimensão que hoje alcança em nosso pais, o que, também, levou os colegas a formular a referida demanda.

Assim as considerações que a seguir exponho decorrem, não só da atenção a essa sugestão, manifesta pelos nossos colegas, mas desse incipiente processo de reflexão que vinha fazendo sobre a postura ou a reação que a situação estaria provocando em nossa categoria profissional.

Evidentemente, que a construção de uma resposta a essa curiosidade não pode ser alcançada, somente, a partir da observação, ainda mais decorrente do olhar e da sensibilidade de um único e isolado observador, como é a situação com que nos deparamos em função da “delegação” de meus colegas.

Entendemos que isso só é possível por um processo bem organizado e devidamente construído de reflexão e de dialogo coletivo entre os integrantes de nossa categoria profissional ou, de um grupo organizado de colegas, o que certamente, enriqueceria um debate necessário, em função do ineditismo da situação que enfrentamos, e das eventuais e particulares interpretações formuladas por grupos representativos dela, com eventuais participação na formulação e cumprimento das recomendações com que se procura regular o processo de enfrentamento do fenômeno, mas que, por elas, como sabemos, estão a inviabilizar uma atividade desse tipo que pressupõem a reunião de pessoas.

Nessa circunstância este ensaio não passa de uma especulação que carrega, no que expressa, a bagagem pessoal que construímos em decorrência de nossa formação e vivencias em sociedade. No caso, como um profissional que pela sua história pessoal e profissional tem ao longo da vida procurado dar sentido aos acontecimentos a partir de seu compromisso com a vida, com a qualidade da vida, como condição de saúde dos coletivos que compõem a, desigual, estrutura social, de nossa sociedade.

É, pois, dentro desse estreito limite que pensamos, e procuramos produzir esse texto.

Nosso propósito com ele não se volta para reproduzir, ampliar, dar maior ressonância pública ao que já se torna óbvio pela ação da grande mídia, que vem desenvolvendo, com intensidade e propriedade, a divulgação sobre o fenômeno e as medidas de enfrentamento ao problema e de tudo aquilo que vem sendo exposto e recomendando no que toca aos cuidados e formas de agir dos coletivos sociais, para esse enfrentamento, produzidos pelas instâncias governamentais, em cooperação com membros de nossas academias e organizações científicas.

Muito menos se trata de uma “Nota Oficial” tipo de manifestação, que expressa e manifesta a posição de uma entidade dirigindo-se à sociedade, em geral, declarando sua solidariedade, apoio, e disposição de corresponder a suas preocupações e demandas, produzidas, muitas vezes, simplesmente, para angariar prestigio do que para, efetivamente esclarecer e aportar providências ou anunciar compromissos a serem assumidos.

É lógico que isso, não nos exime de pessoal, individual e profissionalmente, sobretudo, por meio de nossa participação nas entidades de representação de nossa categoria, a protagonizar no sentido de que, por suas representatividades, tomem a posição de somarem-se aos esforços que expressam um agir coletivo voltado a beneficio da sociedade, nos enfrentamentos, que vem adotando para administrar a crise que decorre da epidemia do coronavirus.

Assim, o texto, restringe-se ao âmbito de nossa categoria e visa nela abrir um salutar espaço de interlocução que permita aprofundar entendimentos sobre o fenômeno, conhecer as formas pelo qual podemos, enquanto uma categoria profissional de saúde, contribuir para o seu enfrentamento e, da vivência que estamos tendo, nos apropriarmos de lições que só a experiência do viver nos proporciona, se tivermos a capacidade de problematizá-las com o objetivo de constantemente qualificarmo-nos para a tarefa social de cidadania que decorre de nosso agir como homens/profissionais - condição da qual não podemos fugir.

Constitui-se, pois, este documento em um Texto Especulativo que, pelo método da problematização, busca ajudar a responder às questões que formos capaz de formular sobre o tema. Tudo isso, poderíamos sintetizar na pergunta:

QUE LIÇÕES PODEMOS TIRAR, PARA NOSSA CATEGORIA PROFISSIONAL, DA EXPERIÊNCIA QUE ESTAMOS VIVENDO?

Nesse sentido, vejamos algumas das situações que poderiam compor em uma resposta a pergunta:

A primeira delas é de saber se a categoria conseguiu construir bases consensuais sobre o fenômeno coronavirus, em sua expressão de patologia e de problema social, na medida que esse é um princípio básico para, profissionalmente e organizadamente, poder se intervir na dinâmica técnica e política do processo de definição e estabelecimentos de sua abordagem.

A segunda é saber se dispomos e costumamos nos valer de métodos dialógicos entre nós e nossas entidades de representação para efetivar esse tipo de construção, de forma que nossa atuação profissional possa responder e, coerentemente, ter condições de apresentar, nos espaços e processos de definição de estratégias, medidas e protocolos de práticas de serviços, posicionamentos e sugestões concensuadas e legitimadas e, mais do que isso, possamos cultivar o dever que recai sobre todos nós, em especial os que produzem ciência e alcançam status de especialistas, esforçarem-se em compartilhar seus saberes, na mesma medida em que os usam para qualificar currículos ou ganhar status nos rankings das publicações internacionais.

A terceira é de saber se, na medida em que o fenômeno está em curso, mas já se colhem elementos para desenho de cenários sobre sua evolução, frente a adoção de algumas medidas para enfrentamento de controle e de tratamento, se estabeleceu algum procedimento de acompanhamento que permita se conhecer a contribuição e desempenho profissional, vinculado aos conhecimentos e práticas sociais referentes a nossa área de atuação – a saúde bucal. Afinal não é a boca e a saliva, área e componente que, popularmente , identificam nosso campo de atuação profissional, um dos principais meios pelo qual pode se dar a transmissão do Covid-19?

Uma quarta lição que poderíamos esperar colher dessa experiência em curso refere-se a especulação sobre como o fenômeno repercute ou afeta a forma de pensar dos trabalhadores de saúde, em particular dos que desenvolvem e assumem altos graus de auto-estima e valorização, tanto no plano pessoal como profissional, como é o caso dos que atuam no campo médico, entre os quais estamos nós C. Dentistas, em suas condições de “doutores”. Ou seja, uma das lições que nos impõe a crise do coronavirus é essa que se refere ao dimensionamento que os homens, a espécie humana a que pertencemos, vem assumindo em relação ao nosso planeta, tendência que se acentua em nossa caminhada evolutiva . Tema, que é pouco tratado em nossos espaços de formação, mesmo nos considerando profissionais de saúde. Ao nos super-valorizarmos, como espécie alfa, enfrentamos, como em outras ocasiões, a lição de humildade decorrente de um “simples” vírus, que nos coloca vulneráveis, pequenos, acuados, preocupados, em risco de vida, em pânico social e mundial. Será que isso não nos ensina algo? Lembrando o que nos diz Paulo Freire : “Antes de ser profissional, o profissional é homem”, condição que, na amplitude desse significado, não pode ser desconsiderada quando tratamos dos espaços de formação e qualificação de nossos profissionais, em particular os de saúde, de forma a proporcionar oportunidades de aprendizado de atitudes holísticas em seus agires profissionais.

A quinta questão ou lição a considerar, sobre a qual poderíamos especular, como um corolário da anterior, se apresenta como perguntas do tipo: Nós, profissionais de saúde em odontologia, estamos sendo preparados para participar do enfrentamento de questões que, para além da especificidade de nossos limitados campos de intervenção, são de impacto social, como os que estamos vivendo? Afinal, saúde, promoção de saúde, na sociedade não é condição dependente de todos os fatores que implicam em qualidade de vida? Nesse mesmo sentido, portamos formação teórica para intervir em questões desse nível social e político que transcendem os conhecimentos técnicos científicos de nossas especialidades, mas que se refletem no campo saúde? Será isso desnecessário? Como categoria profissional não temos nada a ver com isso? Como tais circunstâncias se refletem no que respeita a nos sentirmos e/ou nos assumirmos como trabalhadores sociais de saúde? Sabemos o significado de assumir tal condição? Será que essa experiência e a condição de trabalhadores sociais não nos fazer pensar sobre como e quanto temos nos contrapostos as ações de desconstrução do SUS e defendido a necessidade de sua qualificação, tomando isso como sua responsabilidade inerente a condição de profissionais de saúde?

Também poderíamos, como uma sexta lição, especular sob como temos nos sentido nessa nova experiência, tanto no âmbito do trabalho em clínica privada quanto no de serviços públicos. Por exemplo, como temos recebido e considerado as orientações oficiais das instâncias de poder governamental que conduzem o processo de enfrentamento a crise de que os trabalhadores de saúde tem a obrigação de manter, sob qualquer condição suas atividades de atendimento a população, mesmo que em condições em que, nem sempre e, talvez na maioria dos casos, não lhe ofereçam, plenamente, as condições de prevenção que são recomendas serem assumidas e utilizadas para a população em geral? Ainda que cientes da gravidade das circunstância que enfrentamos sermos levados a acreditar que, no mínimo como por dever de ofício, os profissionais da odontologia, como os demais trabalhadores sociais de saúde, mesmo no âmbito específico de suas práticas profissionais, não tem como se recusar a exercê-las, não teríamos o dever de denunciar publicamente que tais carências decorrem do descompromisso que sucessivos governos vem tendo em relação aos serviços públicos de saúde e só agora o valorizem, mesmo em nível de discurso? Nessas circunstâncias precisaríamos definir algumas limitações ao normal funcionamento de nossos serviços? Na medida em que se ocupam de desenvolver ações no campo da educação, da prevenção e do tratamento, visando a orientação das pessoas e comunidade sobre o que é o evento, as medidas de proteção para evitar o contágio e controle do processo de evolução da epidemia e a cura dos pacientes em seus diferentes graus de afetados pela ação do vírus,temos nos empenhado em definir protocolos para ação nesses espaços? Temos, de parte de nossas entidades de representação, recebido algum tipo de orientação de ordem trabalhista ou de comportamento ético? Tal dever, de não parar, se aplica apenas ao trabalho na esfera pública? Não se estende a rede de serviços privados? Não há como negar que tais perguntas precisam ser consideradas e devidamente dimensionadas de forma que reflitam, não apenas sentimentos pessoais mas, a consciência e a sensibilidade do coletivo social, sobretudo das categorias do campo da saúde.

Nessa mesma ordem de coisas, porém em uma dimensão que muitos poderão considerar desproporcional em relação a gravidade e amplitude do problema que vivemos, caberia, perguntar ainda se - aproveitando o patamar de envolvimento que o fenômeno patológico da situação de epidemia e pandemia assume , sobre tudo no aspecto de prevenção a expansão do contágio, não deveriamos realizar um profundo mergulho reflexivo sobre o cotidiano de nossas práticas profissionais no que respeita a condutas primarias recomendadas em protocolos já estabelecidos para o controle de infecções? O quanto nossos ambientes de trabalho respondem adequadamente a eles? O quanto temos dado a devida dimensão de responsabilidade a simples atos, que hoje se tornaram universais enquanto recomendação de condutas como: Lavar as mãos, como recomendado pela técnica, fazer uso do álcool gel como medida de higiene e barreira ao contágio, fazer uso da mascara cirúrgica, lembrando que ela tem validade limitada?

Assim, penso, que para um ensaio provocativo à consideração daqueles que a ele tiverem acesso, o que tentamos levantar para o estimulo à outras reflexões sobre o tema, o que apresentamos é suficiente, mas, o concluiremos com uma última consideração a seus pensares. Trata-se de um entendimento e de uma dúvida.

O entendimento já foi expresso ao inicio do texto quando dissemos que construir um cenário completo das lições que podemos tirar desse episódio não é tarefa para qualquer “mente iluminada” mas, tarefa que precisa ser assumida pelo coletivo da categoria ou por grupos delas, que se disponham à, dialogicamente, debater o tema, de forma organizada e em tempo correspondente a sua complexidade e importância. Porém como no momento isso é impossível de ser realizado, penso que, pelo menos deveríamos continuar nesse processo de especulação, com trocas de pensares por meios eletrônicos, de forma a nos preparar para o momento que a crise for superada e pudermos nos reunir para debatê-las. Isto nos leva ...

A dúvida:

SERÁ QUE AMANHÃ, VENCIDO O QUADRO DE HOJE, ESTAREMOS COM A MESMA DISPOSIÇÃO PARA FAZER ESSA REFLEXÃO?

Mais uma vez perguntas: Temos desenvolvido a prática de participar de reuniões que colocam em pauta questões da natureza formativa que se relacionem a temas que fogem aquilo que diz respeito aos nossos conhecimentos técnicos? Nossas escolas e entidades de educação tem se ocupado disso?

Todavia, para não nos render a possíveis improbabilidades e continuar refletindo sobre possibilidades, penso que a questão poderá ser encaminhada se nos propusermos e nos prepararmos para, no caso de nosso Instituto, a realização futura de mais uma QUINTA TEMÁTICA, atividade que temos desenvolvido dentro da programação de trabalho do Instituto, em parceria com o Departamento de Saúde Coletiva da ABO/RS, desta feita, para pensar e tratar da questão que hoje vivenciamos. Nela poderíamos coletivamente responder a duas perguntas que se complementam:

“Quais as lições que a epidemia do Coronavirus deixou para os profissionais da odontologia? Com o que precisamos nos ocupar para, no futuro, alcançarmos posturas e comportamentos profissionais mais qualificados a nossa participação e contribuição aos esforços que a sociedade continuará, em outras oportunidades, a desenvolver para enfrentar novas questões e desafios que outros momentos da realidade continuarão a impor?

Finalmente, colegas, um pedido de desculpa:

Desculpem, se não atendemos a suas pretensões, mas é o que julgamos ser, nessa oportunidade, o possível, o mais adequado e, éticamente, o mais apropriado para apresentar em resposta a demanda que nos fizeram. Lembrando que estamos, apenas no meio desse processo e que, ainda temos muito o que aprender, para qualificar nosso agir profissional que precisa estar sintonizado nas necessidades que se expressam em relação à qualidade de vida das pessoas, em particular aquelas excluídas e desfavorecidas em função do modelo de organização social em que vivemos, que também merece nossa atenção, como homens e cidadãos profissionais que somos.

Obrigado pela oportunidade!

Em 16.03.2020

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