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LOUVAÇÃO AO SUS EM TEMPOS DE PANDEMIA: UMA METÁFORA A COITADA DA GENI- PARTE 1

Atualizado: Jun 5


POR FERNANDO MOLINOS PIRES FILHO

CONTEXTUALIZANDO O TEMA

O mundo e a vida que nele vivemos, ao contrário do que gostaríamos que fosse, não é e nunca foi um “mar de rosas”. Muito pelo contrário, o planeta, sem falar do cosmos, e a nossa história de vida, são produtos de grandes contradições e conflitos, embates e grandes crises de forças e energias, tanto as decorrentes de fenômeno naturais como de eventos sociais, econômicos e, políticos, tomados como problemas usuais, que nos acostumamos a enfrentar, com crença de que podemos solucioná-los no decorrer o tempo, mediante soluções que, paulatinamente, a ciência e o desenvolvimento tecnológico colocam a nosso alcance, de uma parte aliviando nossas preocupações e, de outra, fortalecendo nossa tendência de que somos poderosos e invenciveis. Disso, se ocupou, magnificamente, Fritjof Capra, Ph. D. na Universidade de Viena , que notabilizou-se em seus estudos sobre física de alta energia, em várias Universidades da Europa e dos estados Unidos e por suas duas obras mais populares: O Tao da Física e o Ponto de Mutação, que vem produzindo significativas revolução em todas as ciências e uma transformação de nossa visão do mundo e de nossos valores

Mas, ainda hoje, só ganhamos compreensão de que a realidade não é bem assim como desejamos que fosse quando seus efeitos se tornam ameaças gritantes a nossa aparente “normalidade”, como no caso dos grandes desastres ecológicos e de ameaças a nossa sobrevivência, fenômenos que atingem, de tempos em tempos, a humanidade em sua existência. Mesmo assim, tudo que acontece abaixo desse patamar continua sendo tomados como “questões naturais” de nosso cotidiano até que suas conseqüências tornam-se visíveis e compreendidas em suas reais dimensões. Mas, frente a elas é bastante comum dizermos “é a vida”, em uma espécie de resignação ou aceitação passiva desse acontecer que cada vez mais nos encaminham para desenlaces inimagináveis.

Agora, como está acontecendo, o que nunca consideramos ser possível, um pequeno vírus acaba por demonstrar que apesar da soberba da raça humana, somos vulneráveis e não dominamos tudo. Rompe-se o mito da espécie alfa.

As conseqüências estão aí. Estamos adoecendo aos borbotões, as mortes são inimagináveis, não estávamos preparados para fazer frente a tão devastador ataque e, o que é inimaginável, frente ao avanço, científico e tecnológico que atingimos, pouco sabemos desse agressor e não temos remédios ou vacina para tentar contê-lo.

Desde o início da pandemia, ainda em 22 de maio corrente a imprensa mundial notificava que o mundo havia ultrapassado 5 milhões de infectados (5.188.705). Ainda assim esse número de diagnosticados refletiam apenas parte da quantidade real de contaminações porque muitos paíse testam apenas os casos greves. Associado a isso já haviam morrido mais de 300 mil pessoas (334.057), incluindo aí adultos e crianças, sem que tenhamos precisão sobre como esse número se distribui em relação a outros discriminantes, como homens, mulheres, crianças e adultos, sadios e doentes e muito menos o pertencimento as diferentes classes sócias.

No Brasil, dados contabilizados até o dia 22 desse mês, registram um quadro que coloca o país entre os que enfrentam situação que o coloca no topo mundial dessa grave situação, retratando-se o seguinte perfil numérico:

Número de casos confirmados: 310.087

Número de atingidos recuperados: 106.794 (39%)

Número de mortes: 20.047

Número de novos casos nas ultimas 24 horas: 18.508

Além disso, apesar dos números absolutos colocarem o país entre as nações com mais vítimas fatais, o número de mortes por milhão de habitantes é de 94, o que coloca o Brasil na 26ª posição no mundo. Afora isso as analises apontam para que ainda não atingimos o ponto mais alto da evolução do fenômeno mas dele nos aproximamos em alta velocidade de progressão.

Tal golpe é difícil de assimilar. Nos obriga, como tem sido de costume, frente aos mitos, buscarmos soluções mágicas, como alívio explicativo menos ameaçador ao que desconhecemos. Além disso, tentamos nos proteger do inimigo, nos escondendo dele ou de suas manifestações. Perdemos a capacidade do domínio das situações a que somos obrigados a adotar, inclusive de algumas comuns aos momentos de normalidade em que nos damos direito a tudo, sem limites e condicionantes, mesmo aqueles que reconhecemos como inadequados ou mesmo prejudiciais a nós, aos outros e ao próprio planeta que habitamos. Em outras palavras a crise ataca nossas cabeças, simbolizando uma situação de perda de controle sobre o que pensamos e fazemos.

Nesse contexto, ainda nos damos o direito de não fazer o que já aprendemos que precisamos fazer para nos proteger individualmente ou como um coletivo, mas o que não conseguimos realizar com tal facilidade é parar de pensar e sentir.

Nos impedimentos do fazer, que ocupava nosso tempo, pensamos e pensamos. Nossa mente se ocupa daquilo que se nos apresenta como indecifrável e concretamente impossível de estar acontecendo. Mergulhamos no mundo das preocupações conosco, com os que nos são caros por laços familiares ou de amizade e até mesmo daqueles que, se não ignorávamos, por eles pouco fazíamos. Sentimos coisas estranhas, medo, angustia, pena de nós mesmos e, não raro entramos em desespero, que nos levam a posturas e comportamentos, que enfrentam e destroem nossas, até então, convicções. Tal quadro psicológico, nos leva a busca de alivio no discurso e na prática.

No discurso, passamos a manifestar no plano da sociabilidade sentimentos que, ou não sentíamos, ou guardávamos, por não considerar relevantes, ou apropriados de serem confessados ou compartilhado com outros. Na prática, passamos a adotar condutas no plano da solidariedade. Passamos a prática da filantropia, como um ato de piedade ou de compensação por condutas anteriores egoístas, hoje assumidas como desumanas, que não praticávamos.

Quem diria que chegamos até a admitir a existência de desigualdades e injustiças ou até mesmo de manifestar idéias antes consideradas impróprias por pregarem a necessidade de mudanças, reformas ou mesmo transformações na ordem instituída, mas que neste contexto afloram fazendo nos dar conta de quanto o pensar torna-se perigoso, para os que dele pouco faziam uso e, isso, também, é um choque que impõem dúvidas, a ponto de se pensar: Será que estou enlouquecendo?! Será que isso está acontecendo com outros?! O que fazer?!

Essa situação angustiante exige de nós um escape imediato.

A solução automaticamente se impõem. Passamos a compartilhar esses sentimentos. Ouve-se, com frequência: Preciso falar ou até mesmo escrever para verificar se isso não é apenas um sonho!

Assim, ensimesmarmo-nos, parece não ser uma postura aconselhável, afinal somos seres de relação. Compartilhar, discutir, dialogar, falar, ouvir são próprios a natureza da espécie humana. Nessa troca reforçamos laços de companheirismos, nos fortalecemos em nossas fraquezas momentâneas e aguçamos nossa capacidade de junto a outros compreender e protagonizar na construção e definição de estratégias, políticas, medidas e ações que, minimamente nos coloquem no campo efetivo da não resignação, da resistência e da luta para o enfrentamento a tudo que venha contribuindo para esse tipo de ataque a humanidade, resgatando a esperança de que é possível, sempre, alcançar o que só aparentemente nos parece impossível. Individualmente somos frágeis, juntos podemos ser mais fortes, certamente não para resolvermos tudo, mas o suficiente para nadar e sobreviver nesse mar, em tempos de tempestade. Isso nos coloca na perspectiva de alguma forma reagir.

(continua...)



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