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LOUVAÇÃO AO SUS EM TEMPOS DE PANDEMIA: UMA METÁFORA A COITADA DA GENI - PARTE 2

Por Fernando Molinos Pires Filho



TENTANDO REAGIR

Dentro desse quadro de referência, que tentei configurar na Parte 1 deste texto, cada pais tenta encontrar seus caminhos a medida que toma consciência da dimensão da crise sanitária, social, econômica e política em que a humanidade inteira está mergulhada e da forma como essa situação se expressa em seus territórios e em suas fronteiras mais próximas.

No caso do Brasil o olhar dessa globalidade nos aponta um caminho: o de alinharmo-nos ao conhecimento do que mundialmente tem recomendado a Organização Mundial de Saúde, que acompanha o desdobramento da situação em nível mundial e fundamenta suas posições e aconselhamentos aos países em base a preocupações com a humanidade nos mais recentes e atualizados conhecimentos científicos em relação a pandemia. Mas tudo esbarra na singularidade de cada um de nos e, principalmente de nossos governantes, a quem cabe a responsabilidade de apontar estratégias e medidas de várias naturezas que zelem para a prevalência de um comportamento comunitário condizente com tais diretrizes.

Mas voltando ao caso de nossas particularidades aqui estou eu em isolamento social, mas não em “lock down do pensamento”, como convem a quem quer continuar vivendo e tentando reagir a situação. A forma de fazê-lo cabe a cada um assumir. No meu caso procurando para fazer a louvação, nos termos de que nos falou Gilberto Jil em música que leva esse nome e, ficar ainda mais alerta com o SUS, em função do que diz Chico Buarque em outra musica chamada Geni e o Zepelin, temas que metaforicamente utilizo para titular este texto em que me refiro ao momento que vivemos e que penso é bem provável que já se desenha para a pós pandemia.

Gil nos fala em seus versos dizendo:

“Vou fazer a louvação - louvação, louvação Do que deve ser louvado - ser louvado, ser louvado”

Aconselha em continuação que:

“ Louva a quem espera sabendo Que pra melhor esperar Procede bem quem não pára De sempre mais trabalhar Que só espera sentado Quem se acha conformado”

Mas, dirigindo-se aquém o escuta, alerta:

“Quem 'tiver me escutando - atenção, atenção Que me escute com cuidado Louvando o que bem merece Deixo o que é ruim de lado.

Assim, vou aqui tentar não me referir ao que de ruim estamos todos nós vivendo, como a pandemia em suas consequências de enfermidade, ao comportamento e postura do Presidente da República que, em uma situação dessas, deveria assumir responsabilidades correspondentes a sua função e a gravidade do que vem acontecendo, mas que, mesmo frente aos milhares de mortes, insiste em tratá-la como uma “gripizinha” e sobre ela e seus mortos, que se empilham, fazer piadinhas. Também vou tentar não falar da lentidão de um desfecho político, dentro dos postulados constitucionais, que dê solução definitiva a seus desrespeitos aos princípios humanitários e suas afrontas e ataques desvairados as instituições e aos postulados constitucionais de um Estado democrático de direito, como todos nós vimos assistindo diariamente.

Mas, deixando o que é de ruim de lado faço a louvação:

1- Em primeiro lugar, a todos profissionais de saúde, sem distinção de funções que vem cumprindo, sobretudo, na linha de frente, com o papel que suas funções exigem, dando a devida atenção aos que necessitam de cuidados, mesmo frente as precárias condições de trabalho que lhes tem sido oferecidas, que muitos deles enfrentam cujas conseqüências se expressam no número do que adoecem e nele perdem a vida. Heróis até ontem, no caso dos funcionários públicos que atuam no SUS, considerados como ineptos, incompetentes, sangue sugas do dinheiro do Estado, vagabundos na expressão não de um mas de vários políticos e administradores públicos e, para ser sincero de outros segmentos de nossa desigual sociedade.

2- Faço a louvação da ciência expressa no fazer de professores nas faculdades que formam trabalhadores sociais e pesquisadores, hoje atuando em centros de investigação, dedicados a atenção a vida, a produção do conhecimentos científicos reconhecidos e tomados como a “verdade” indispensável a condução das políticas, estratégias e medidas de combate ao vírus, mas até ontem desconhecidos, desconsiderados em suas necessidades de trabalho, decorrentes de cortes de verbas para manutenção de seus laboratórios e de tudo o mais necessário para o desvendamento do desconhecido e a produção da tão decantada tecnologia. Sem falar do corte de bolsas de estudo e auxílios financeiros para sustentação de seus estudos e trabalhos de investigação, como em nosso RS, recentemente denunciou o Reitor da Universidade Federal de Pelotas ao apontar o fato de que apesar das disposições constitucionais de nosso Estado de repasse pelo Executivo de 1,5% da receita corrente liquida para a Fundação de Amparo a Pesquisa ( FAPERGS), o índice, há décadas, não chega a 10% desse valor estabelecido. Exemplo de um verdadeiro ataque do vírus enlouquecedor que, metaforicamente, pode ter atingido alguns ministros desse governo, entre os quais, no caso do país, ganham destaque como o Ministro da Educação e de seu companheiro do Ministério da Ciência e da Tecnologia. O primeiro já instado pela justiça para esclarecer sobre suas desvairadas freqüentes manifestações.

3- Faço a louvação ao reconhecimento atual da sociedade a uma das especialidades médicas menos reconhecida no contexto das demais que compõem o amplo espectro das que se organizam em função da diferentes enfermidades que atacam as pessoas – a da Saúde Publica - composta por uma gama de profissionais sanitarista que ocupam-se de áreas como epidemiologia, infectologia, biologia, estatística, psicologia, absolutamente necessárias sobretudo em relação a fenômenos que dizem respeito a saúde da população em sua condição de paciente coletivo, até ontem pouco lembrada, até mesmo pela mídia que hoje solicita sua constante presença em seus programas televisivos e entrevistas em jornais.

4- Faço a louvação do resgate, entre alguns segmentos até então alienados da sociedade, de valores humanitários voltados para solidariedade e apoio aos mais necessitados. Seres que em situação da “normalidade”, em que se vivia anteriormente a epidemia, sequer tinham sua existência reconhecida, mas que pulsam vivos na marginalidade, com reduzidos padrões de vida, quer nas grandes metrópoles quer mesmo em nossas pequenas cidades. Estudos já apontam que pelas dificuldades de atender as recomendações usuais de controle que vem sendo recomendadas constituem-se eles no mais vulnerável grupo de risco a epidemia. Isso sem falar nos discriminados por questões de gênero, cor e idade.

5 - Faço a louvação ao desvelamento de uma realidade há muito denunciada, mas escamoteada do conhecimento público, relativo ao inexplicável potencial de capital acumulado pelo sistema de financeiro e pelo grande complexo industrial, que, hoje, revelando um “alto espírito de soledariedade” vem, a titulo de ajuda humanitária, injetando “elevados” valores a serem aplicados no apoio ao combate a pandemia. Conglomerados do capital, que passado o momento atual voltarão a seus negócios, com a imagem e certamente com apoios renovados do Estado, para ampliar e “estimular” a economia e seus ganhos obtidos em muitos casos a custas de minimização dos salários e direito dos trabalhadores, quando não dos prejuízos e atentados ao meio ambiente , em um conhecido desrespeito a preservação do planeta e das riquezas naturais. Exemplos claros dessa contradição se evidenciam, entre grandes bancos privados que com seus juros escorchantes exploram pessoas e pequenas empresas que lutam, mesmo para receber os minguados “socorro” governamentais aos menos favorecidos. O mesmo para o sistema empresarial onde são exemplos gritantes a Vale, responsável pelo desastre ambiental e perdas humanas em Mariana e Brumadinho e a JBS que financiou a corrupção e foi responsável por uma das crises políticas que até o momento abalam a “normalidade” democrática do país.

6 - Faço a louvação a Organização Mundial de Saúde em seus esforços de construir e estimular a cooperação entre as nações, sobretudo no que toca a criação de mecanismos de cooperação técnica e financeira para a sustentação de estudos e pesquisas voltadas a produção de medicamentos que possam a ser aplicados na minimização dos efeitos da doença, em especial da descoberta de uma vacina para a prevenção ao vírus, como por exemplo a ação “Colaboração Global para Acelerar o Desenvolvimento, Produção e Acesso Equitativo a Diagnóstico, Tratamento e Vacina Contra o Covid-19” iniciativa que reúne países como França e Alemanha, organizações internacionais, fundações e empresas privadas. Mas, o governo brasileiro em função de seu comportamento no trato da pandemia, negando-se a cooperação internacional, sequer foi convidado a participar o que nos faz pensar sobre, quando a descoberta for concretizada, as dificuldades que terá o pais em ter acesso a ela, sem falar não poder influenciar na questão de preços e enfrentar condições inferiores. Sofre, também, essa Organização o ataque de ameaças de retirada das contribuições que permitem seu funcionamento como as adotadas pelo amigo do Presidente do Brasil o Presidente Donald Trump dos Estados Unidos, que também faz criticas a situação vivida pelo nosso pais ameaçando suspender as viagens áreas fechando o acesso de brasileiros aquele país, para que não contaminem o povo americano e, “de lambuja”, coopera com o envio de alguns respiradores para “amenizar” as dificuldades de acesso ao mercado desse essencial aparelho para sustentar os pacientes mais agravados pelo CIVID-19.

6- Finalmente para não me alongar ainda mais, faço louvação ao forçado reconhecimento da sociedade ao papel e importância do nosso Sistema Único de Saúde, tratado até então, como de sempre - por aqueles que fazem da saúde mercadoria para a venda e em seus negócios e pelo contingente de pessoas que alienadamente acreditam no fetiche da solução paga no setor privado lucrativo de saúde comportam-se - como a Geni em uma metáfora a música “Geni e o Zepelim”, de Chico Buarque. Neste caso, abro um parênteses para melhor configurar esta louvação, me apoiando na canção de Chico.

Nessa canção Chico narra a história de uma dama prostituta que em uma cidade que foi violentamente ameaçada por um corsário que condicionou poupar a população de seus violentos ataques caso a referida donzela concorda-se em cair em seus braços, ao que ela se negava. Mas, em um gesto de proteção aos que a detestavam, cedeu e por isso passou a ser louvada. Todavia logo que o corsário foi embora a população esqueceu-se do ato da referida dama, que logo passou novamente a ser destratada, em termos que infelizmente passaram a ser muito comuns em nosso país, presentes inclusive nas falas presidências, em reuniões com seus ministros e de várias formas mesmo em público, em manifestações que se voltam contra as instituições do país. Vejam, pois, a similitude da história ao que é possível vir a acontecer em relação ao SUS, ao que hoje todos recorrem, mas que tão logo passe o momento que vivemos, poderá virar a ser tratado como a coitada da Geni.

Em um primeiro verso Chico descreve a personagem. Diz:

“De tudo que é nego torto Do mangue e do cais do porto Ela já foi namorada O seu corpo é dos errantes Dos cegos, dos retirantes É de quem não tem mais nada Dá-se assim desde menina Na garagem, na cantina Atrás do tanque, no mato É a rainha dos detentos Das loucas, dos lazarentos Dos moleques do internato E também vai amiúde Co'os velhinhos sem saúde E as viúvas sem porvir Ela é um poço de bondade E é por isso que a cidade Vive sempre a repetir Joga pedra na Geni Joga pedra na Geni Ela é feita pra apanhar Ela é boa de cuspir Ela dá pra qualquer um Maldita Geni”

Em outro verso Chico fala da tragédia que se abateu sobre o lugarejo:

Um dia surgiu, brilhante Entre as nuvens, flutuante Um enorme zepelim Pairou sobre os edifícios Abriu dois mil orifícios Com dois mil canhões assim A cidade apavorada Se quedou paralisada Pronta pra virar geleia Mas do zepelim gigante Desceu o seu comandante Dizendo Mudei de ideia Quando vi nesta cidade Tanto horror e iniquidade Resolvi tudo explodir Mas posso evitar o drama Se aquela formosa dama Esta noite me servir

Essa dama era Geni que em nome da salvação da cidade e frente a tantos pedidos, ao estranho se entregou. Mas, revela a canção, em mais alguns versos, a tragédia final:

Foram tantos os pedidos Tão sinceros, tão sentidos Que ela dominou seu asco Nessa noite lancinante Entregou-se ao tal amante Como quem dá-se ao carrasco

Ele fez tanta sujeira Lambuzou-se a noite inteira Até ficar saciado E nem bem amanhecia Partiu numa nuvem fria Com seu zepelim prateado

Num suspiro aliviado Ela se virou de lado E tentou até sorrir

Mas logo raiou o dia E a cidade em cantoria Não deixou ela dormir Joga pedra na Geni Joga bosta na Geni Ela é feita pra apanhar Ela é boa de cuspir Ela dá pra qualquer um Maldita Geni

:

7 - Para finalizar, mesmo correndo o risco de ser mal interpretado, pois mesmo para qualquer entendedor medianamente inteligente seria impossível entender-se de estarmos aqui fazendo louvação a pandemia, não posso deixar de fazer a louvação as noticias internacionais que dão conta da queda nos índices mais comuns que evidenciam a poluição do nosso planeta, que já se faz sentir, de várias formas, como, para ser breve, na melhoria do ar que respiramos, na água que bebemos e na redução dos índices, decorrentes dos gases estufas, efeitos esses decorrentes da queda no ritmo alucinante e desenfreado do produzir que desconhece a limitação de nossas reservas naturais, o que se reflete nas mudanças da temperatura ambiental. Tudo isso sem o estabelecimento de protocolos internacionais mas da quebra forçada da “normalidade” de nossa atual forma de viver. Em contraposição a isso, lamentavelmente, em nosso país, o noticiário também da conta de denunciar que enquanto vivemos o horror da epidemia, ninguém mais que o atual Ministro do Meio Ambiente ( nesse governo é conveniente se referir sempre o atual por que a qualquer momento podem ser demitidose substituidos) em reunião ministerial afirmou que na “tranqüilidade da hora” (leia-se nossa preocupação e atenção com a doença) era o momento de “porteira abertas” passar o trator no que lhes era de interesse em vários campos, entre os quais certamente podemos já incluir o caso do desmatamento de uma das maiores reservas naturais da humanidade – a floresta amazônica, que além de tudo se constitui em ameaça a vida dos povos indígenas que, também, o já famoso Ministro da educação diz ter “ ódio, ódio” desse negócio de povos, referindo-se a esse e outros segmentos de nossa sociedade.

Assim a história segue seu curso, em função de nossas reações que se efetivam graças a nossa capacidade crítica, para tornar nosso protagonismo, cada vez mais efetivo no combate a pandemia que, infelizmente, também, continua e neste momento coloca o nosso país como epicentro de seu desenrolar. Daí, a terceira parte deste texto que aponta para “O QUE AINDA PRECISA SER MELHOR VISTO.”

( continua ... )

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